Michael Jackson completaria 68 anos neste sábado, 29 de agosto. Nascido em 1958, em Gary, no estado norte-americano de Indiana, ele viveu apenas 50 anos, mas deixou uma obra que continua movimentando a indústria musical quase duas décadas depois de sua morte.
Em 2026, talvez exista uma demonstração ainda mais concreta da dimensão desse legado. A cinebiografia “Michael”, protagonizada por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, ultrapassou US$ 1 bilhão em bilheteria mundial e se tornou a cinebiografia musical de maior arrecadação da história. Paralelamente, músicas lançadas há mais de quatro décadas voltaram às principais paradas, enquanto Michael passou a ser ouvido mensalmente por cerca de 95 milhões de usuários somente no Spotify.
Mais do que recordar um artista do século passado, os números mostram um fenômeno incomum: adolescentes e jovens que não eram nascidos quando Michael morreu, em 25 de junho de 2009, estão consumindo “Billie Jean”, “Beat It”, “Thriller”, “Human Nature” e outras músicas como parte do repertório atual.
De menino prodígio a fenômeno da Motown
Michael Joseph Jackson começou a subir aos palcos ainda criança. Aos seis anos, já atuava profissionalmente como vocalista do grupo formado com os irmãos Jackie, Tito, Jermaine e Marlon. Pouco depois, o Jackson 5 se transformaria em uma das maiores sensações da Motown.
Contratado pela gravadora em 1969, o grupo conseguiu um feito extraordinário: seus quatro primeiros grandes singles, “I Want You Back”, “ABC”, “The Love You Save” e “I’ll Be There”, chegaram consecutivamente ao primeiro lugar nos Estados Unidos. Michael, ainda criança, já ocupava o centro das apresentações com uma presença de palco e uma capacidade vocal que o diferenciavam.
A carreira solo começou paralelamente. Em 1972, “Ben”, faixa-título de seu segundo álbum solo, chegou ao primeiro lugar da Billboard Hot 100. Mas seria no fim daquela década que Michael deixaria definitivamente de ser visto apenas como a estrela infantil do Jackson 5 para assumir o controle de uma carreira própria.
“Off the Wall” abre caminho para o Rei do Pop
O ponto de virada veio com “Off the Wall”, lançado em 1979 e produzido por Quincy Jones, com quem Michael construiria uma das parcerias mais importantes da história da música popular.
O álbum reuniu disco, funk, soul e pop em uma produção sofisticada, impulsionada por músicas como “Don’t Stop ‘Til You Get Enough”, “Rock with You”, “She’s Out of My Life” e a própria faixa-título.
“Don’t Stop ‘Til You Get Enough” também rendeu ao cantor seu primeiro Grammy. Mas “Off the Wall”, por mais importante que fosse, acabaria funcionando como preparação para algo muito maior.
Três anos depois, Michael Jackson mudaria a dimensão da indústria fonográfica.
“Thriller” transformou sucesso em fenômeno mundial
Lançado em 30 de novembro de 1982, “Thriller” atravessou a fronteira entre álbum de sucesso e fenômeno cultural.
Segundo o Guinness World Records, o disco ultrapassou a marca estimada de 67 milhões de cópias vendidas mundialmente, mantendo o título de álbum mais vendido da história. Nos Estados Unidos, é o álbum de um artista solo com a maior certificação da história, com 34 milhões de unidades reconhecidas.
Dos nove títulos do álbum, sete chegaram ao Top 10 norte-americano. Entre eles estavam “Billie Jean”, “Beat It”, “Human Nature”, “Wanna Be Startin’ Somethin’” e “Thriller”.
O disco permaneceu 37 semanas na primeira posição da Billboard 200 e levou Michael a uma histórica cerimônia do Grammy em 1984: foram oito prêmios em uma única noite. Ao longo da carreira, o cantor conquistou 13 Grammys em 38 indicações.
Mas os números contam apenas parte daquela revolução.
Michael Jackson mudou a forma de assistir à música
Antes de Michael, videoclipes eram principalmente ferramentas de divulgação. Com ele, passaram a ser tratados como produções cinematográficas.
“Billie Jean” e “Beat It” ajudaram Michael a romper barreiras raciais na programação da MTV, que, em seus primeiros anos, privilegiava artistas brancos e ligados ao rock. “Thriller”, dirigido por John Landis, levou o conceito ainda mais longe, transformando um videoclipe em um curta-metragem com narrativa, coreografia, maquiagem, efeitos e atmosfera de filme de terror.
A dança tornou-se parte inseparável da música.
Em 1983, durante o especial televisivo que comemorava os 25 anos da Motown, Michael apresentou “Billie Jean” e popularizou mundialmente o moonwalk. O passo existia anteriormente em outras formas, mas sua apresentação o transformou em um dos movimentos mais reconhecidos da cultura pop.
A luva brilhante, o chapéu fedora, as meias brancas, os movimentos precisos, as pontas dos pés e as pausas dramáticas formaram uma identidade visual que passou a ser reproduzida por artistas, dançarinos e fãs em praticamente todos os continentes.
Depois de “Thriller”, Michael continuou quebrando recordes
A dificuldade de suceder o álbum mais vendido da história não impediu Michael de alcançar outro fenômeno comercial.
“Bad”, lançado em 1987, tornou-se o primeiro álbum a gerar cinco músicas número 1 na Billboard Hot 100. “I Just Can’t Stop Loving You”, “Bad”, “The Way You Make Me Feel”, “Man in the Mirror” e “Dirty Diana” chegaram ao topo da parada.
Em 1991, “Dangerous” aproximou Michael do new jack swing e apresentou uma sonoridade diferente da trilogia produzida com Quincy Jones. “Black or White”, “Remember the Time”, “Heal the World”, “Jam” e “In the Closet” ajudaram o álbum a superar 35 milhões de cópias comercializadas mundialmente.
Já “HIStory: Past, Present and Future, Book I”, de 1995, apresentou um Michael mais confrontador e interessado em temas políticos, sociais e ambientais.
É dessa fase uma das maiores conexões do cantor com o Brasil.
Brasil entrou para a história de Michael Jackson
Em 1996, Michael gravou no Brasil parte do videoclipe de “They Don’t Care About Us”, dirigido por Spike Lee. As filmagens ocorreram no Pelourinho, em Salvador, com participação do Olodum, além de cenas registradas no Rio de Janeiro.
A imagem do artista cercado pelos tambores do bloco afro baiano tornou-se uma das cenas mais reconhecidas de sua carreira nos anos 1990 e contribuiu para projetar internacionalmente elementos da cultura brasileira.
O vínculo com o país já havia sido reforçado alguns anos antes, quando Michael trouxe a Dangerous World Tour para São Paulo. Em outubro de 1993, realizou apresentações no estádio do Morumbi com repertório formado por músicas como “Jam”, “Human Nature”, “Smooth Criminal”, “Thriller”, “Billie Jean”, “Black or White” e “Heal the World”.
Uma carreira também marcada por controvérsias
A dimensão artística de Michael Jackson coexistiu, especialmente nas últimas décadas de sua vida, com intensa exposição de sua vida privada.
Mudanças em sua aparência, relacionamentos, sua residência em Neverland e comportamentos considerados excêntricos passaram a ocupar espaço permanente na imprensa internacional. Acusações de abuso sexual infantil também se tornaram parte indissociável da discussão pública em torno do cantor.
Michael negou as acusações durante toda a vida. Em 2005, após um julgamento amplamente acompanhado pela imprensa mundial, um júri da Califórnia o declarou inocente em todas as acusações criminais submetidas ao julgamento.
Novas alegações feitas após sua morte voltaram a alimentar discussões sobre sua trajetória e continuam sendo contestadas por seu espólio e familiares. O debate permanece como uma das partes mais controversas de sua biografia, paralelamente à permanência de sua obra na cultura popular.
A última tentativa de voltar aos palcos
Depois do lançamento de “Invincible”, em 2001, último álbum de estúdio publicado durante sua vida, Michael passou anos sem realizar uma grande turnê.
Em março de 2009, anunciou que voltaria aos palcos de Londres com a série de apresentações “This Is It”. Os shows estavam programados para começar naquele mês de julho e representariam sua grande volta aos espetáculos.
Ela nunca aconteceu.
Na manhã de 25 de junho de 2009, Michael Jackson sofreu uma parada cardíaca em uma casa alugada em Los Angeles. Sua morte foi confirmada posteriormente em um hospital da cidade.
A notícia provocou comoção mundial e levou milhões de pessoas de volta ao catálogo do cantor.
A morte aos 50 anos e a condenação do médico
A investigação determinou que Michael Jackson morreu em decorrência de intoxicação aguda por propofol, um poderoso anestésico, com efeito de benzodiazepínicos como fator adicional.
A morte foi classificada oficialmente pelo legista do condado de Los Angeles como homicídio.
O médico particular de Jackson, Conrad Murray, havia administrado propofol ao cantor na tentativa de fazê-lo dormir. Em novembro de 2011, Murray foi considerado culpado de homicídio involuntário. O júri concluiu que a negligência do médico teve papel determinante na morte do artista.
Michael deixou três filhos, Prince Michael Jackson, Paris Jackson e Prince Michael Jackson II, conhecido como Bigi, além de um dos catálogos musicais mais valiosos e populares da história.
Dezessete anos depois, Michael voltou ao centro da cultura pop
O que aconteceu em 2026 ajuda a explicar por que o aniversário de Michael Jackson permanece relevante.
Em abril, chegou aos cinemas “Michael”, cinebiografia dirigida por Antoine Fuqua e estrelada por Jaafar Jackson no papel do tio.
O filme acompanha a trajetória do artista desde a infância e a ascensão com os irmãos até a fase de “Bad”. A recepção da crítica foi dividida, inclusive pela maneira como aspectos controversos da vida do cantor foram tratados. Comercialmente, porém, o resultado foi extraordinário.
Em 28 de julho, o Guinness World Records já contabilizava US$ 1,016 bilhão em bilheteria mundial, resultado que fez de “Michael” a cinebiografia musical de maior arrecadação da história, superando “Bohemian Rhapsody”.
O efeito chegou imediatamente à música.
“Billie Jean” voltou às paradas mais de 40 anos depois
Na semana de 24 a 30 de abril, logo após a estreia do filme, o catálogo solo de Michael somou 137,5 milhões de reproduções oficiais sob demanda somente nos Estados Unidos, crescimento de 146% e novo recorde pessoal.
“Thriller” retornou ao Top 10 da Billboard 200. “Billie Jean” voltou à Hot 100. Outros discos, como “Number Ones”, também dispararam.
O fenômeno continuou nos meses seguintes.
Em maio, Michael chegou a ter seis músicas simultaneamente na Hot 100. “Billie Jean” subiu até a 15ª colocação em seu novo ciclo na parada e continuou entre as músicas mais consumidas do planeta durante o ano. Na Billboard Global 200 referente à semana de 22 de agosto, a faixa aparecia em 9º lugar, disputando espaço com lançamentos de 2026.
Outro caso chamou atenção. “Chicago”, gravação lançada postumamente no álbum “Xscape”, de 2014, entrou pela primeira vez na Hot 100 em 2026, na 30ª posição. Com isso, Michael tornou-se o primeiro artista a conseguir novas entradas na parada em seis décadas diferentes, dos anos 1970 aos anos 2020.
Hoje, “Billie Jean” já supera 3,1 bilhões de reproduções no Spotify, enquanto “Beat It” passou de 2,1 bilhões e “Thriller” ultrapassou 1 bilhão. O perfil oficial do cantor reúne aproximadamente 95 milhões de ouvintes mensais, colocando um artista morto há 17 anos entre os nomes mais consumidos da plataforma.
Um artista que virou referência para quem veio depois
É difícil medir a influência de Michael Jackson apenas pelas vendas.
O Rock & Roll Hall of Fame aponta sua influência sobre nomes de diferentes gerações, entre eles Beyoncé, Bruno Mars, The Weeknd, Justin Timberlake, Usher e BTS. Michael foi introduzido duas vezes na instituição: primeiro como integrante do Jackson 5, em 1997, e depois por sua carreira solo, em 2001.
A combinação entre música, coreografia, figurino, narrativa audiovisual, iluminação e espetáculo de estádio que hoje parece parte natural da indústria pop teve em Michael um dos principais responsáveis por estabelecer seu padrão moderno.
Também mostrou que um lançamento musical poderia ser um acontecimento global simultaneamente no rádio, na televisão, nas lojas, nos palcos e, posteriormente, nas plataformas digitais.
Aos 68 anos, Michael Jackson pertence também a uma geração que nunca o viu vivo
Michael Jackson não chegou aos 68 anos.
Mas sua obra chegou.
Quarenta e quatro anos após “Thriller”, 39 anos depois de “Bad” e 17 anos após sua morte, músicas gravadas quando discos de vinil, fitas cassete e a televisão determinavam o consumo cultural aparecem agora em Spotify, YouTube, TikTok e playlists frequentadas por uma geração nascida muito depois de seu auge.
A cinebiografia que ultrapassou US$ 1 bilhão não construiu esse fenômeno sozinha. Ela evidenciou algo que os números de streaming já indicavam: Michael Jackson deixou de pertencer exclusivamente à memória de quem viveu os anos 1980 e 1990.
Em 2026, o menino que começou cantando ao lado dos irmãos em Gary, virou o maior vendedor de discos de sua geração e morreu aos 50 anos voltou a disputar atenção com artistas nascidos décadas depois de seus maiores sucessos.
Neste 29 de agosto, quando completaria 68 anos, talvez esse seja o dado que melhor dimensione o legado do Rei do Pop: Michael Jackson virou passado da história da música sem deixar de fazer parte do presente da cultura pop.







